Tempo, tempo, tempo: entro num acordo contigo

outubro 18, 2026

 Dia desses percebi minhas primeiras rugas na testa. Estava no espelho me arrumando para ir pro trabalho e em um ato corriqueiro de levantar o olhar pra passar o corretivo nas olheiras, percebi as finas linhas em cima das sobrancelhas. Ô susto! Susto danado. Tô nos primeiros meses desde que completei 31 anos e por privilégios diários que vivo, não me dei conta de que estou - de fato - envelhecendo. Ô sorte! Sorte danada. Não me entenda mal, sei que sou jovem, estou na flor da idade e todos esses clichês que dizem por aí, mas a verdade é que não estou mais na inocência juvenil dos 20s, estou na vida real dos 30s e cada dia mais me sinto assim.

Sou completamente ligada no mundo da beleza, amo me sentir bonita, inteira, natural e encho minha boca toda vez pra dizer que nunca fiz um procedimento estético. A verdade é que pra ser bem sincera, quem sabe até quando? Não sei. Também não sei dizer direito o efeito que perceber minhas primeiras rugas causou em mim. Talvez esteja causando tanto que estou escrevendo sobre isso aqui agora. O fato é que a cada ruguinha fina percebida e cada fio branco que eu camuflo ou que arranco da cabeça, penso mais e mais na finitude. Em como somos frágeis, raros e pequenos universos ao mesmo tempo.

Nesta semana em que escrevo esse texto, dois artistas conhecidos do público, um internacional e outra nacional, morreram na casa dos 30. Ele por decisão própria, ela com um câncer. Meu avô morreu com 37 anos na década de 60 num infarto fulminante, um primo partiu aos 39 num acidente de moto. Pesei o clima, eu sei. Mas idade não é parâmetro pra quase nada nessa vida... você pode viver oito décadas em paz  ou pode ter uma existência fugaz. A diferença é o que você faz com o seu tempo aqui, sem saber até quando ou onde você vai.


Não vou mentir, estou irritadíssima com essas rugas, com esses fios brancos, com essas olheiras resultado de uma  mente estressada por trabalho e com várias noites mal dormidas acumuladas. Mas tudo isso é muito pequeno perto de tudo o que eu vivo, já vivi e ainda quero viver. Eu tenho saúde, tenho fome de viver, tenho muito amor na minha vida, adoro ser quem eu sou. Frente a tudo isso e qualquer adversidade ou desafio que a vida imponha, eu ja sou e tenho tudo o que preciso. Papo de autoajuda? Talvez sim. Contudo, num mundo que nos afoga em uma tela pequena, em meio a crises políticas e desumanas, precisamos encontrar bálsamos ao longo da jornada.

O meu bálsamo é enxergar (sempre que me lembro e que fujo da autossabotagem) a metade meio cheia do meu copo, o verde da minha grama. O que ainda posso fazer, nos dias em que vivo a graça de acordar, no café quentinho que vou passar ali agora e em tudo o que eu aprendo diariamente.

Enquanto gozo de tudo o que a terapia pode me dar  e já me deu em anos no meu processo, vou vivendo, aprendendo, gritando às vezes, silenciando noutras. Não tenho, nem nunca terei, todas as respostas que me afligem, as penas e mazelas do mundo, o que se passa com cada pessoa. Coloco em prática que cada história é única e que devemos sim nos compadecer, respeitar, cuidar e nos inspirar uns aos outros. Mas, lembro também, que cada partezinha desse grande universo é composto pelos pequenos universos humanos.

Sobre a finitude, os medos, os questionamentos doídos, aceito que eles serão para sempre, assim como a minha consciência e tudo o mais que é bonito.

  • Share:

You Might Also Like

0 comentários